Missões

Até que todas as nações ouçam

Texto-base: “E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim” (Mateus 24.14 – ARA).

Poucas palavras de Cristo conseguem colocar diante da Igreja um horizonte tão vasto quanto estas. Jesus olha para além da pequena região em que caminhava com Seus discípulos, para além das fronteiras de Israel, para além até mesmo das gerações que imediatamente O ouviam, e fala de um evangelho que atravessaria povos, línguas e fronteiras. Reis se levantariam e cairiam, impérios seriam reduzidos a ruínas, idiomas nasceriam e desapareceriam, mas aquela mensagem anunciada por um pequeno grupo de discípulos na Palestina continuaria sua marcha pelo mundo.

Mateus 24 contém algumas das palavras mais solenes de Jesus. Os discípulos haviam perguntado sobre a destruição do templo, Sua vinda e o fim dos tempos. Cristo então lhes fala sobre guerras, perseguições, falsos profetas, apostasia e sofrimento. Porém, no meio desse cenário escuro, há uma certeza luminosa: o evangelho não será silenciado. O mundo poderá perseguir os mensageiros, mas não conseguirá enterrar a mensagem. A história não terminará com a Igreja acuada em algum canto da terra; terminará tendo ouvido o testemunho acerca de Cristo.

Há nisso uma segurança para a Igreja, mas também uma responsabilidade. Se Deus determinou que o evangelho alcance as nações, então os cristãos não podem tratar missões como um assunto periférico, reservado a algumas organizações especializadas ou a alguns crentes excepcionalmente corajosos. A missão pertence à própria identidade da Igreja.

O que Jesus quis dizer com “todas as nações”?

É necessário algum cuidado quando lemos Mateus 24.14. Jesus diz que o evangelho seria pregado “em todo o mundo, para testemunho a todas as nações”. A palavra grega traduzida por “nações”, ethnē, não corresponde simplesmente aos Estados políticos que aparecem em um mapa moderno. Seu campo de significado inclui povos e gentios. Por isso, quando a missiologia contemporânea fala em “grupos de povos”, está tentando descrever de maneira prática as numerosas comunidades étnicas, linguísticas e culturais nas quais o evangelho precisa criar raízes.

Não devemos, contudo, imaginar que as atuais listas missiológicas sejam uma espécie de cronômetro profético, como se pudéssemos contar alguns grupos restantes e calcular a data da volta de Cristo. A Escritura nunca nos concede essa autoridade. Nem devemos identificar de maneira mecânica cada categoria estatística moderna com o significado exato de ethnē. As ferramentas de pesquisa nos ajudam a enxergar a tarefa; elas não substituem a exegese bíblica.

Há também diferentes interpretações cristãs sobre a relação entre Mateus 24.14 e os acontecimentos do primeiro século. Alguns intérpretes entendem que as palavras de Jesus tiveram um cumprimento significativo na rápida expansão do evangelho pelo mundo conhecido antes da destruição de Jerusalém em 70 d.C.; outros enxergam no texto, além desse horizonte imediato, uma dimensão que alcança a consumação final. Essa discussão é legítima. Mas uma verdade permanece inegável quando observamos o restante do Evangelho de Mateus: Cristo quer discípulos entre todas as nações. Sua última ordem registrada por Mateus não é permanecer em Jerusalém, mas “fazer discípulos de todas as nações” (Mt 28.19).

O movimento do evangelho é, portanto, centrífugo. Ele parte e se espalha. A graça que chegou até nós nunca teve a intenção de terminar em nós.

Quanto do mundo ainda permanece sem acesso ao evangelho?

Talvez a distância entre nossa experiência cotidiana e a realidade missionária global torne fácil imaginar que o cristianismo já alcançou praticamente todo o planeta. Afinal, existem igrejas em inúmeros países, Bíblias circulam pela internet e conteúdos cristãos podem atravessar oceanos em segundos. Porém, presença cristã em um país não significa necessariamente acesso significativo ao evangelho entre todos os povos daquele país.

Os números atuais são sóbrios.

O Joshua Project, uma das bases de dados mais utilizadas na pesquisa missionária evangélica, identifica atualmente cerca de 16.426 grupos de povos quando contabilizados em seus respectivos países. Desses, aproximadamente 7.162 são classificados como não alcançados, cerca de 43,6% do total. Esses povos representam aproximadamente 3,62 bilhões de pessoas, ou cerca de 44% da população mundial segundo a metodologia da organização.

“Não alcançado”, nesse contexto, não significa necessariamente que absolutamente ninguém daquele povo tenha ouvido o nome de Jesus. Significa que a presença cristã evangélica é tão pequena que o grupo ainda não possui recursos e comunidade suficientes para evangelizar adequadamente seu próprio povo sem auxílio externo. Essa distinção é importante. As estatísticas não estão afirmando que 3,62 bilhões de pessoas nunca ouviram uma palavra sobre Cristo; estão apontando para enormes populações entre as quais uma igreja local capaz de sustentar a evangelização ainda é muito pequena ou inexistente.

Há um nível ainda mais inquietante. O Joshua Project registra atualmente cerca de 2.197 grupos não alcançados e não engajados, somando aproximadamente 774 milhões de pessoas em 108 países. “Não engajado” significa que não há, nos dados disponíveis à organização, trabalhadores conhecidos ou esforço sustentado de plantação de igrejas entre aquele povo. A própria instituição alerta que trabalho clandestino ou não reportado pode existir em contextos de perseguição, de modo que esses números devem ser tratados como a melhor estimativa disponível, e não como conhecimento infalível.

Outra instituição importante, o Center for the Study of Global Christianity, ligado ao Gordon-Conwell Theological Seminary, utiliza critérios diferentes. Sua avaliação para 2025 estimou cerca de 2,21 bilhões de pessoas sem acesso ao evangelho, aproximadamente 27% da população mundial. O mesmo levantamento estimava cerca de 2.500 idiomas com tradução do Novo Testamento.

Por que os números diferem? Porque “não alcançado”, “não evangelizado” e “sem acesso ao evangelho” são categorias missiológicas diferentes, construídas com metodologias diferentes. Não devemos misturá-las como se fossem medidas idênticas. Mas justamente aqui está algo significativo: mesmo organizações que medem a realidade de maneiras distintas chegam à mesma conclusão básica — bilhões de seres humanos ainda vivem com acesso extremamente limitado ao testemunho cristão.

O relatório State of the Great Commission, do Movimento de Lausanne, trouxe outra dimensão do problema. Dados divulgados por Lausanne apontam aproximadamente 3,34 bilhões de pessoas em populações não alcançadas e estimam que somente cerca de 3% dos missionários internacionais estejam servindo entre essas populações, embora elas representem perto de 40% da humanidade.

A questão, portanto, não é apenas quantos trabalhadores existem. É também onde eles estão.

Por trás dos números existem almas

Existe um perigo em escrever números tão grandes. Depois de alguns bilhões, nossa mente começa a perder a capacidade de imaginar pessoas. “3,6 bilhões” torna-se uma abstração. “7.162 povos” transforma-se numa tabela. “774 milhões” parece estatística de relatório econômico.

Cristo, porém, nunca viu multidões dessa maneira.

Quando contemplou as multidões, Mateus diz que Ele Se compadeceu delas porque estavam aflitas e exaustas, como ovelhas sem pastor. Foi nesse contexto que declarou: “A seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos” (Mt 9.37).

A estatística missionária somente é cristã quando conseguimos enxergar, por trás dela, rostos.

Em algum lugar existe uma criança que nascerá, crescerá e morrerá cercada por uma religião na qual ninguém jamais lhe explicou claramente quem é Jesus Cristo. Existe uma aldeia em que ninguém consegue abrir as Escrituras em sua própria língua. Há homens e mulheres que poderiam atravessar toda a existência sem conhecer pessoalmente sequer um cristão que lhes anuncie o evangelho com clareza.

Eles não são um número dentro de uma estratégia missionária. São pessoas feitas à imagem de Deus. Pessoas com medos, famílias, pecados, lágrimas, perguntas, funerais e uma eternidade para enfrentar.

Se conseguimos olhar para milhões de seres humanos sem acesso ao evangelho e permanecer completamente indiferentes, é mais provável que não precisemos primeiramente de uma nova estratégia missionária. Precisamos pedir a Deus um coração semelhante ao de Cristo.

“Como ouvirão se não há quem pregue?”

Paulo formula em Romanos 10 uma sequência cuja simplicidade deveria inquietar a Igreja: como alguém invocará Aquele em quem não creu? Como crerá naquele de quem não ouviu? Como ouvirá sem quem pregue? E como pregarão se não forem enviados?

Deus poderia ter escrito o evangelho nas estrelas. Poderia fazer Sua mensagem ecoar diretamente do céu sobre cada cidade. Poderia enviar anjos para realizar aquilo que confiou à Igreja. Mas Ele escolheu colocar o tesouro do evangelho em vasos de barro como nós.

Gente envia gente. Gente atravessa fronteiras. Gente aprende outro idioma. Gente sustenta trabalhadores. Gente traduz as Escrituras. Gente abre a própria casa. Gente ora durante anos por povos que talvez nunca veja pessoalmente.

E, por meio desses meios e instrumentos frágeis, Cristo reúne para Si um povo que o livro de Apocalipse descreve como vindo de “todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7.9).

E com isso vemos que o objetivo final da missão não é a glória do missionário. É a adoração de Cristo. Missões existem porque existem lugares onde o Cordeiro ainda não é adorado como merece.

A igreja não pode viver voltada apenas para si mesma

Talvez um dos maiores perigos de uma igreja local seja tornar-se tão ocupada com sua própria manutenção que deixe de enxergar o mundo. Há cultos para organizar, contas para pagar, conflitos para resolver, departamentos para administrar, reformas para realizar e programas para manter. Pouco a pouco, tudo aquilo que acontece além de nossas paredes passa a parecer distante.

Mas a Grande Comissão não permite que a Igreja faça de si mesma o centro de sua existência.

Uma igreja pode ter boa música, boa pregação, prédio cheio e calendário movimentado e, ainda assim, possuir um horizonte missionário tragicamente pequeno. Podemos gastar enormes recursos tornando mais confortável a experiência daqueles que já ouviram enquanto quase nada dedicamos àqueles que ainda esperam por sua primeira oportunidade de ouvir.

Isso não significa desprezar a evangelização local. A missão começa na rua diante de nossa casa tanto quanto pode levar alguém ao outro lado do oceano. Há vizinhos que precisam de Cristo, cidades brasileiras com pouca presença evangélica saudável, comunidades isoladas, povos indígenas, imigrantes, regiões rurais e ambientes urbanos profundamente secularizados.

O problema surge quando usamos a necessidade próxima como desculpa permanente para ignorar a necessidade distante.

Cristo disse que a igreja deveria ir a Jerusalém, Judeia, Samaria e confins da terra (At 1.8). Não “ou” um lugar “ou” outro. Mas todos os lugares, um por um, até que chegue aos confins da terra.

Nem todos irão, mas todos devem participar

Seria equivocado afirmar que cada cristão deve abandonar sua profissão e tornar-se missionário transcultural. O Novo Testamento apresenta diferentes vocações, dons e responsabilidades dentro do corpo de Cristo. Mas seria igualmente equivocado concluir que a missão pertence somente àqueles que foram chamados para atravessar culturas.

Toda igreja deve ser uma igreja missionária, e todo cristão deveria encontrar alguma maneira concreta de participar.

Alguns irão. Outros enviarão. Alguns sustentarão. Outros abrirão caminhos profissionais em países de difícil acesso. Alguns traduzirão. Outros ensinarão filhos a amar as nações. Muitos orarão. Alguns cuidarão das famílias daqueles que partiram. Outros usarão seus recursos para que alguém permaneça onde o evangelho quase não é conhecido.

A pergunta não precisa ser: “Devo fazer exatamente o que aquele missionário faz?” A pergunta deve ser: “Que lugar a missão de Cristo ocupa na administração da vida que Ele me deu?”

Essa pergunta alcança nosso tempo, nossas orações, nossos planos, nossas finanças e até os sonhos que construímos para o futuro. Porque é possível admirar missionários e nunca participar da missão. É possível emocionar-se com histórias de povos distantes e não separar sequer alguns minutos para orar por eles. É possível defender a Grande Comissão em nossa teologia e mantê-la longe de nossa agenda.

O mundo ainda espera

Há algo profundamente solene em viver neste momento da história. Temos meios de transporte que atravessam continentes em horas. Podemos conversar instantaneamente com alguém a milhares de quilômetros. Recursos de tradução avançam rapidamente. A Igreja existe hoje em regiões que séculos atrás eram vistas quase exclusivamente como campos missionários. O centro demográfico do cristianismo deslocou-se fortemente para África, Ásia e América Latina. A missão cristã tornou-se cada vez mais policêntrica: coreanos enviam missionários, brasileiros enviam missionários, africanos evangelizam europeus, asiáticos alcançam outros asiáticos.

E, mesmo assim, bilhões permanecem em populações com acesso limitado ao evangelho. Nunca tivemos tantos recursos. E ainda há tanto por fazer. Talvez isso devesse nos humilhar.

A questão não é se Cristo cumprirá Sua promessa. Ele edificará Sua Igreja. O evangelho do Reino será anunciado. O Cordeiro terá para Si um povo comprado por Seu sangue. A questão é se teremos o privilégio de gastar nossa breve vida participando daquilo que Deus está fazendo na história ou se passaremos por ela ocupados demais com coisas que morrerão conosco.

Mateus 24.14 não foi dado para satisfazer nossa curiosidade sobre o calendário do fim. Foi dado, entre outras coisas, para mostrar que nenhum caos histórico impedirá o avanço do evangelho. As nações não pertencem finalmente aos reis. Pertencem ao Cristo. Os impérios passam. As fronteiras mudam. E as gerações descem ao pó. Mas a Palavra continua correndo pelo mundo.

E enquanto houver povos entre os quais Cristo mal é conhecido, a Igreja ainda terá diante de si uma estrada. Talvez alguns de nós sejam chamados a percorrê-la literalmente. Outros tornarão possível que alguém vá. Todos, porém, deveriam carregar em algum lugar do coração o peso santo da mesma oração: “Senhor da seara, envia trabalhadores”. E talvez devamos ter coragem suficiente para acrescentar: “E, se quiseres, envia-me.”

A graça que atravessou povos, línguas e séculos até chegar a nós não foi dada para terminar em nós.

FONTES DOS DADOS E ESTATÍSTICAS: Joshua Project; Center for the Study of Global Christianity; State of the Great Commission: Movimento de Lausanne.

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